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| Dançar sempre foi uma fantasia para mim, nunca entendia o que as pessoas faziam nos salões, também eu tinha três anos de idade e já freqüentava os bailes de onde eu morava.
Ano de 1968, conturbado devido a mudanças políticas, sociais e culturais, mas pela pouca idade não me dava conta de toda essa mudança. A cidade onde vivi parte de minha vida um dia chamou-se Machabomba, hoje conhecida como Nova Iguaçu, mas precisamente no bairro Ponto Chiq, um nome que lembrava elegância. Lá existia um clube recreativo, daqueles clubes sociais que hoje não são tão conhecidos, chamava-se Grêmio Recreativo Ponto Chiq, onde eu e quase toda família de minha mãe freqüentávamos. Também pudera! Gostar de música era tradição na família, minha avó materna tocava piano, meu tio avô conhecido como Piraju cantava e tocava, minha tia Antonieta antes de ensinar a arte da Dança tocava violino e minha mãe pianista, portanto a tradição estava no sangue. Contudo eu continuava sem entender bem o que representava todo aquele movimento das pessoas no salão, quando já com meus seis anos, em 1971, com a ânsia de descobrir o que era essa experiência, certo baile resolvi dar uma de adulto, endossado por minha prima, filha de Maria Antonieta, da mesma idade que eu, tomei-a pelos braços e a arrastei para o salão, dei dois rodopios e caímos sentados no chão. Achei o maior barato, mas não tentei outro vez. O meu senso observador me levava a admirar os passos no salão, aliás o salão para mim era tão grande que parecia o Maracanã, isso na minha visão de criança. É como aquele rio que você admirava quando era pequeno, e depois que cresce vê que era apenas um córrego.
Os anos passaram, eu mudei de endereço, meu mundo mudou, conheci novos ritmos e movimentos, expressões culturais, já estava com treze anos, era época de John Travolta, eu adorava ver seus filmes e depois imitá-lo, aliás grandes filmes musicais. Nessa época, meu sentimento por danças desabrochava, ainda tímido, mas eu já sentia que a dança fazia bem a alma, ao corpo, trazia felicidade e era muito social, realmente o êxtase completo.
A vida continuou, e por volta de 1979, me pregou uma peça, por necessidade eu e minha mãe fomos morar com uma tia, aquela que freqüentava os bailes do Grêmio Ponto Chiq e que bailava no salão, já nesta época morando no centro do Rio de Janeiro onde a noite era uma criança, ?porém proibida para crianças?. Nós e minha tia dividíamos uma quitinete, com espaço suficiente para quatro pessoas e alguns móveis, lá além de morar minha tia dava aulas de Dança de Salão, aquela mesma que via dançando desde mais novo, pois foi ai que começara a segunda parte da minha vida. Lá todos os dias apreciava minha tia ensinando os primeiros passos a pessoas que eu jamais imaginará me relacionar, eram médicos, engenheiros, professores, advogados, garis, jornalistas, enfim, realmente ali vi que não era um mundo irreal, ele existia, tanto é que eu fazia parte dele, mesmo que apenas observando. Esse convívio me ajudou muito no meu crescimento intelectual e jamais imaginaria um dia estar fazendo parte do movimento social que representava a Dança para os salões e nem muito menos estar um dia escrevendo parte desta história.
Fui crescendo um pouco mais, eu estudava no subúrbio e ainda morávamos com minha tia e para ir à escola precisava tomar um trem na Central do Brasil e desembarcar na estação de Bento Ribeiro, local este que viria morar anos depois. Estas viagens de ir e vir tinha uma magia, mas a principal delas era o som que o trem produzia, ele é ritmado e bem compassado, parece uma escola de samba, pois é, a relação foi imediata com a música e o ritmo tão brasileiro o ?Samba?. |
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